quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Igreja e o Folclore

Cada vez mais se esclarece a posição real e firme que a Igreja deve tomar com relação às festas folclóricas.
Já não mais se veta e proíbe a manifestação popular, por vezes natural mas desintencionalmente profana em seus brincos, folguedos e festanças. Já não mais se cobram taxas aos grupos folclóricos (Folias, Marujadas, Congos, Pastoris, Reis-de-Bois etc.) para permitirem as suas exibições públicas.
A palavra de ordem de Sua Santidade o papa Pio XII é hoje o roteiro para a Igreja, frente ao folclore. Em discurso pronunciado em Roma, no dia 19 de julho de 1953, perante as delegações participantes do Festival Internacional de Folclore, realizado em Nice (Revista Eclesiástica Brasileira, setembro de 1953, p. 740), Sua Santidade teve o ensejo de dizer, saudando os grupos folclóricos que foram ao Vaticano, que
Os dotes íntimos dum povo traduzem-se naturalmente no conjunto dos seus usos, nos contos, lendas, jogos e cortejos, em que se ostenta o esplendor dos trajes e a originalidade dos grupos e das figuras. As almas, que se encontram em contato permanente com as duras exigências da vida, possuem freqüentemente um sentido artístico instintivo, que, duma matéria simples, consegue tirar magníficos resultados. Nestas festas populares, em que o folclore de bom quilate tem o lugar que lhe pertence, cada um desfruta do patrimônio comum, e enriquece-se ainda mais quando se resolve dar-lhe o próprio contributo.
E adiante, mais expressivamente:
Graças à atividade dos grupos folclóricos, mantêm-se ou revivem preciosos costumes. Por isso, é nosso dever louvar aqueles que, com competência e dedicação, se prestam a auxiliá-los, a dirigir-lhes o esforço, a estimular-lhes as iniciativas, e todos aqueles que lhes oferecem diretamente a sua colaboração.
Em outras ocasiões, teve o papa Pio XII oportunidade de louvar o esforço dos que incentivam as manifestações folclóricas, frisando sempre o papel não apenas de condescendência mas de proteção direta da Igreja a esses folguedos do povo.
Há tempos, as alunas do Curso de Formação de Professores do Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora – integrantes do Centro de Pesquisas Folclóricas Colégio do Carmo – houveram por bem mandar imprimir, para mais ampla divulgação, aquele discurso de Sua Santidade. E fizeram mais: solicitaram de D. José Joaquim Gonçalves que lhes prefaciasse a plaquete. O então bispo diocesano do Espírito Santo, numa demonstração de alta compreensão de seu claro espírito, atendendo ao pedido das alunas do Carmo, escreveu estas palavras, que são roteiro também para todos nós:
É louvável e digna de imitação a iniciativa das alunas do último ano do Curso de Formação de Professores, do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Numa contribuição, cristã e patriótica, em favor do desenvolvimento do folclore em nosso Estado e no Brasil, desejam trazer ao conhecimento dos estudiosos a palavra segura, experimentada e inspirada do Sumo Pontífice, o Papa Pio XII, quando, a 19 de julho de 1953, em oportuno e magistral discurso, se dirigia aos participantes do festival folclórico de Nice. A seção de língua portuguesa da Rádio Vaticana traduziu esse precioso documento. Seja esse discurso um estímulo e um modus vivendi para todos os que valorizam cristãmente o folclore. Dessa forma, passaremos a assistir em nossa terra, não a “uma sobrevivência curiosa de épocas transatas, mas a uma manifestação da vida atual, que reconhece quanto deve ao passado, e tenta continuá-lo e adaptá-lo inteligentemente às novas situações”. Bem oportuna se faz aqui a recordação do texto de São Paulo aos Romanos (VIII, 28), que transcreve, acompanhado de uma fervorosa bênção para todos os estudiosos do folclore: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus.” Vitória, 17 de setembro de 1955.
Agora mesmo, acabo de receber do ministro Renato Almeida, secretário geral da Comissão Nacional de Folclore, a notícia alvissareira de que o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro determinou o aproveitamento das danças folclóricas na recreação de grupos católicos.
Essa resolução – que tão de perto se amolda às palavras do Sumo Pontífice – constitui, sem sombra de dúvida, prova cabal de que a Igreja se põe – em tão boa hora – ao lado das manifestações folclóricas, a elas conferindo o apoio e o estímulo forte do seu alto e indiscutível prestígio.

[Fonte: A Gazeta, 07.11.1957]

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