sábado, 28 de abril de 2012

História de Santa Leopoldina ES

Santa Leopoldina - Por Rubem Braga (1953)

São lindos esses rios capixabas, e a sabedoria é fazer como eu e meu povo de Cachoeiro de Itapemerim ou como essa gente da pequena e linda cidade de Cachoeiro de Santa Leopoldina: nascer e viver a infância no trecho em que o rio tem sua última cachoeira ou corredeira e começa a descer para o mar já sem saltos nem espumas, calmo e liso espelhando árvores e nuvens. Assim a gente vive os dois rios, o da montanha e o da planície, o menino é proprietário de pedras, ilhas e correntezas entre morros e também remanso doce entre pastos meigos.
Aqui também a cidade nasceu porque era último ponto onde chegavam as canoas dos povoadores que vinham do mar. Aqui também a navegação não existe mais; no velho Porto de Cachoeiro só chegam as embarcações da história e da lenda. Ali em baixo, na barra do Mangaraí, onde hoje é a fazenda do suíço Hegler, chegou em canoa Pedro II, em 1860, subiu em carro de bois até Tirol, veio a cavalo até Cachoeiro, foi até a Suíça, onde hoje há uma linda igrejinha católica parecida com igreja protestante, subiu até Jequetibá, Luxemburgo, entre curvaturas dos colonos. Muitos deles eram austríacos dos batalhões estrangeiros que Pedro I fora obrigado a dissolver em 1831, e que a imperatriz Leopoldina, da casa dos Habsburgos, naturalmente protegeu.
Aqui, onde é o fórum, morou em 1890 um rapaz chamado Graça Aranha que era juiz municipal e fez um romance chamado Chanaan em que contou histórias verdadeiras, como a da pobre Maria cujo filho os porcos comeram (o processo ainda está no cartório local). Graça Aranha esteve em triste visita a esta bela sala da família Holzmeister em que passo quase uma hora conversando com o inteligente e bom Luiz Holzmeister, irmão daquele pequenino Fritz que morreu esmagado por um barril de vinho. A bela mulher de traços delicados de que o romancista fala ali está na fotografia antiga, na parede do escritório, comovente em sua beleza. Aqui nesse mesmo ano de 1890 nasceu um primo de Luiz e Fritz, o menino Clemens, que aos cinco anos foi levado para a Europa e é hoje um arquiteto de fama internacional, autor do monumento a Dollfuss, do plano urbanístico e de todos os edifícios públicos da nova capital da Turquia, inclusive o palácio de Kemal Ataturk, da cidade dos festivais e da “casa do dr. Fausto” em Salzburgo, de muitas igrejas da Áustria e muitos teatros da Suécia e também da catedral de Belo Horizonte em construção, e da catedral do Rio, em projeto.

E lá fora a cidade é bela, entre duas pontes, com suas casas cobertas de telhas, de tabuinhas, de zinco ou de asbesto, com suas árvores floridas e suas lavadeiras, e a lembrança das tropas de mulas que desciam da montanha com as bruacas de couro carregadas de coisas da lavoura para encher o bojo escuro das canoas compridas.

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